(Pequeno trecho do livro que estou escrevendo)
“Afligiu meus dentes ao abrirem a janela do meu quarto. É que ela está enferrujada. Não sei o que lhe causa tamanha preguiça, se é por estar no meio de tantas coisas, separando o barulho do silêncio, ou por ser somente ferro retorcido, emoldurando duas lâminas de vidro. Enfim, ela me causa sofrimento de qualquer maneira. Talvez esteja ali só pra refletir minha dor, meu eu, sendo matéria-prima para uma metáfora árdua, porém sincera. É... lá está minha janela. Física pra luz do dia. Tímida pra luz da lua. E pensar que já foi apoio pra tanto olhar perdido...
Apenas observei a claridade entrar, sem muita força, pois o dia estava nublado. Era cedo, e eu estava um bagaço, entrelaçado em minhas cobertas e lutando contra uma ressaca fulminante. Demoraria um bom tempo até eu saber o que fazer. Um tanto mais para transformar pensamentos em ação, como se isso fosse tão diferente dos outros dias. Eu fico me perguntando nesses momentos de reflexão barata: quando enchemos a cara, deixamos de ficar sóbrios, ou passamos a de fato ficar? Sei lá. Já andei tanto pelas ruas e só vi gente perdida, sem rumo. Mas quando visto a noite e caio dentro do inferno, vejo pessoas mais conclusivas, menos distraídas. Colocando em exceção suas pernas trocadas, é claro. Não sei. Talvez haja uma troca do físico para o abstrato. A vista embaça, mas a mente abre. Realmente não sei. E nem estou sendo apológico. Apenas entendendo que o mundo já é uma grande loucura por si só. As drogas não libertam. Elas somente nos levam a um estado de loucura mais fantasmagórico, mais invisível, mais introspectivo. É como se houvessem degraus pelo mundo afora, suspensos por determinado tempo, nos livrando da loucura real. Existirão aqueles que as usarão por fuga. Outros, pelo bel-prazer. De qualquer maneira, droga tudo é. Consumimos os farrapos do mundo, logo então, eles nos consomem também. Enfim, cada um irá se remoer, ao seu modo, dentro desse universo sem respostas. Mas qual universo? O de aços e vigas, ou o de carnes e ossos? Que diferença faz, a gente se perde de qualquer jeito.”