20 Dezembro, 2009

Um Labirinto
(Dudu Cesar)

Pele branca, feito as neves das florestas de Lourinhã
Sorriso brando, íntimo de uns lábios cor-de-rosa
Mas os olhos... Ah, os olhos...

29 Agosto, 2009

“There’s a beautiful lily in the black valley, and a boy, with the pale courage, staring his own wings to flutter.”

Dudu Cesar

23 Julho, 2009

Fino Fio de Seda
(Dudu Cesar)

O bicho-da-seda segue a produzir seu fio
Num canto escuro do reino
Para princesas e rainhas
Ao som da valsa dos olhos d'água
Paralelepípedos
(Dudu Cesar)

Construí meu chão no revés de minhas falhas
Atirado sobre a idéia de um alterego solitário
Livre de você
Livre do mundo
Livro de mim

24 Junho, 2009

A Leve Rocha
(Dudu Cesar)

Rasgados olhos nus
Ao redor dos meus
Num ávido mundo que,
De tão perto,
É separado

Dedicado a Ju

30 Março, 2009

O sol estava baixo, encostando o mar. Foi quando o vento veio e jogou areia nos meus olhos. Mal pude ver a grande bola amarela ser engolida pelas águas. Fiquei a vislumbrar o que seria dos meus dias - dias esses que ainda não chegaram; a lembrar aquele em que meu barco se perdeu... se perdeu... naufragou.

Trecho de algo novo que estou escrevendo, mas ainda sem título.

21 Março, 2009

“Os nervos, os ossos, a fé. Ardor de um coração; desatino de uma consciência.”

Dudu Cesar

19 Março, 2009

Tu és...
(Dudu Cesar)

O candeeiro da rua - estreita - onde vaga meu mundo, finito.
A dona do teto - tua boca - onde jaz o meu corpo, faminto.

Tu és...
Tu és...
Eu também quero ser.

03 Março, 2009

O Poeta e o Selvagem
(Dudu Cesar)

Não posso mais me vestir de branco! - é quando o homem reconhece que amar também é uma luta. Luta-se contra o mundo, luta-se contra você mesmo, luta-se contra nada. O vazio é vasto - que é onde se encontra a verdade. O escuro é frio - onde o poeta encontra o selvagem.

Terás de sentir o doce amargo de minha língua. Terás de rastrear cada centímetro de meu corpo. Terás de colidir o sol com a lua. Mas se não fores capaz de ferver o líquido de minha alma, não poderei retribuir com o grito que já não me cala.

Regurgitarei meus demônios como lavas em chamas. Enquanto ratos devoram-se no porão, darei um céu a quem me ama. Enquanto lobos uivam no alto da montanha, darei um sonho a quem me cuida.

22 Fevereiro, 2009

Icebergs
(Dudu Cesar)

A meu ver, ela queria ser bailarina. Posso vislumbrar suas pernas flutuando no espaço, e depois, sobre a ponta dos pés, o pouso suave. Eu estaria na primeira fila aplaudindo de pé. Mas a dança é outra. O ritmo segue o tique-taque do relógio. Não há contrapasso.

Ainda vou olhar nos olhos dela e dizer: pouco me importa a ponta do iceberg. Onde está o resto? Onde está o fio, estirpe de sua beleza maior?

Mundo: um oceano e seus homens de gelo. A espessura que os separa da verdadeira vida, é a vida que se guarda.

14 Fevereiro, 2009

Libertai-me
(Dudu Cesar)

Diante de tamanha covardia, eu queria ser um quadro: sorrir teus olhos, chorar teu sorriso.

- Enquanto temeres o penhasco, não saberás conduzir o amor.

Gritar...
Gritar...
Gritar...
E nem gritar eu grito.

09 Fevereiro, 2009

Catarse
(Dudu Cesar)

Vejo-me no fio, frio. E cada pedaço de mim que se desprende sem eu perceber, jaz em algum lugar que possivelmente não existe mais. Em súbitos romances clandestinos, minha cólera se desvanece e eu já posso voar em paz. Me pego diante de uma porta que ainda não se extinguiu, e meu olhar se lança sobre aquela bela mulher que colhe frutos no pomar; e então eu me perco e sufoco. Sussurros me vêm como o som suave de uma flauta doce, tocada solenemente por um mágico que viaja o mundo a desvendar os mistérios daquilo que todos buscam e que se chama amor. Amor que nunca se acha, que nos deixa na ponta dos pés, mas, que, apesar de mortal, faz do homem um ser vivo.

Começaram a rufar os tambores, como corações pulsantes que vibram com tamanho furor diante de um mar de sonhos. Alguns nunca acordarão. Outros, jamais deliraram. Mas o que faz desta viagem uma mata virgem, é a capacidade que cada um tem de se ver por infinitos ângulos, por infinitos espaços, e sem saber aonde vai dar. Por mais angustiante, por mais pungente que possa ser o maior de todos os meus medos, ainda me sinto aquele cara capaz de transgredir o tempo. E que nada conseguirá diminuir este amor que vive a transbordar dentro desta alma que se veste de carne. Não rezo mais, porém, mantenho preso na parede um crucifixo; e tão imóvel quanto a imagem de Cristo na cruz, são meus passos, mas que sinto doer o corpo, como se tivesse caminhado um universo. E eu quero mais!...

31 Janeiro, 2009

Estranhos e Belos Outros Mundos

“Eu podia ver Jill Win caminhar por aquele enorme corredor de árvores que se estendia sobre um final de outono melancólico. Ele, um homem simples e dedicado que vivia a acreditar que nada seria capaz de enganá-lo. Pobre Jill...”

(Introdução de um livro que comecei a escrever esta semana. Agradecimento especial a Fafá, uma nobre e bela flor.)

14 Outubro, 2008

(Pequeno trecho de um livro que comecei a escrever hoje, e que se chamará Karry, Um Peixe Feliz - A Desumanização)

“Karry, o pequeno peixe dourado de Elizabeth, observava, inquieto, sua dona tagarelar ao telefone com seu fétido e ciumento namorado. Freak parecia uma cena caótica aos olhos daquele pequeno ser borbulhante. Tudo soava de uma maneira tão idiota, que seu drama só fazia aumentar. Antes estivesse em um rio qualquer sendo devorado por um peixe qualquer. Começava a perceber que os homens eram fadados a ser consumidos em vida, fosse por mazelas genericamente cáusticas, fosse por gotículas míseras de futilidade. De repente, aquele despretensioso aquário sobre a bancada do histérico quarto de Elizabeth se tornou um enorme barril de pólvora.”

Agradecimento especial a Bianca, base inicial desta inspiração.

22 Setembro, 2008

O Fantasma
(Dudu Cesar)

Por entre a fresta da porta, observo um fantasma cabisbaixo e moribundo. A silueta de um cabotino que agoniza ao som de suas pegadas sobre a madeira velha e fétida que é o chão. Pegadas pesadas! Quase cego, já não se incomoda mais com as luzes. Porém, apesar de viés, caminha como quem conhece o trajeto, guiado, talvez, pelo instinto.

Abrem-se as cortinas e sua imaginação vaga sobre as cadeiras vazias da platéia. Lágrimas descem como cachoeiras enquanto suas mãos, trêmulas, tentam enxugá-las, em vão. Não se cala o grito da alma, como o silêncio que mata. Do coração já cansado e doente, vem a força. Força dos fracos que já não se importam mais. Edificantes, suas ruínas se alastram como recordações do que não era um mundo cão. Enquanto isso, as fantasias da criança que tenta trafegar por entre as dores mais ardidas, sucumbem para o que seria um espetáculo apoteótico. E no girar do corpo, de repente, vejo que tem dois lados, onde a outra metade sou eu.


Por entre a fresta da porta...

27 Agosto, 2008

Uma Família Num Filme de Super-8
(Dudu Cesar)

De repente, olhando pra trás e vendo toda a sua história, todos os dias felizes e difíceis, todos aqueles que já vieram e se foram; olhando também um ontem mais próximo, seus filhos que nasceram, aqueles que ainda não chegaram, um mundo que virou outrora; então, os dias de hoje, esse hoje quase tão ontem quanto hoje mesmo. E aí, num devaneio púrpuro do tempo, talvez dê pra gente entender uma bem mísera parcela dessas coisas inexplicáveis e que continuarão assim até o último dia de nossas vidas. Talvez não, acredito eu. Mas talvez sirva para sabermos que somos nada mais do que um pedacinho desse filme tão amplo, porém finito chamado vida. E que estaremos sempre presos, como naqueles rolos de super-8. Um dia, também seremos nós somente uma projeção na tela branca de um outro alguém, seguindo o fio de nossos pais, de nossos irmãos e de toda uma geração. E sabe por quê? Porque é isso o que somos: muitos, porém um só. Até que, num futuro não tão distante, enrolados, guardados e pra sempre esquecidos.

10 Agosto, 2008

(Pequeno trecho do livro que estou escrevendo)
“Afligiu meus dentes ao abrirem a janela do meu quarto. É que ela está enferrujada. Não sei o que lhe causa tamanha preguiça, se é por estar no meio de tantas coisas, separando o barulho do silêncio, ou por ser somente ferro retorcido, emoldurando duas lâminas de vidro. Enfim, ela me causa sofrimento de qualquer maneira. Talvez esteja ali só pra refletir minha dor, meu eu, sendo matéria-prima para uma metáfora árdua, porém sincera. É... lá está minha janela. Física pra luz do dia. Tímida pra luz da lua. E pensar que já foi apoio pra tanto olhar perdido...

Apenas observei a claridade entrar, sem muita força, pois o dia estava nublado. Era cedo, e eu estava um bagaço, entrelaçado em minhas cobertas e lutando contra uma ressaca fulminante. Demoraria um bom tempo até eu saber o que fazer. Um tanto mais para transformar pensamentos em ação, como se isso fosse tão diferente dos outros dias. Eu fico me perguntando nesses momentos de reflexão barata: quando enchemos a cara, deixamos de ficar sóbrios, ou passamos a de fato ficar? Sei lá. Já andei tanto pelas ruas e só vi gente perdida, sem rumo. Mas quando visto a noite e caio dentro do inferno, vejo pessoas mais conclusivas, menos distraídas. Colocando em exceção suas pernas trocadas, é claro. Não sei. Talvez haja uma troca do físico para o abstrato. A vista embaça, mas a mente abre. Realmente não sei. E nem estou sendo apológico. Apenas entendendo que o mundo já é uma grande loucura por si só. As drogas não libertam. Elas somente nos levam a um estado de loucura mais fantasmagórico, mais invisível, mais introspectivo. É como se houvessem degraus pelo mundo afora, suspensos por determinado tempo, nos livrando da loucura real. Existirão aqueles que as usarão por fuga. Outros, pelo bel-prazer. De qualquer maneira, droga tudo é. Consumimos os farrapos do mundo, logo então, eles nos consomem também. Enfim, cada um irá se remoer, ao seu modo, dentro desse universo sem respostas. Mas qual universo? O de aços e vigas, ou o de carnes e ossos? Que diferença faz, a gente se perde de qualquer jeito.”